{"id":39930,"date":"2024-04-03T08:56:11","date_gmt":"2024-04-03T08:56:11","guid":{"rendered":"https:\/\/traductanet.com\/ultimas-noticias\/clarice-lispector-a-jornada-de-traducao\/"},"modified":"2024-04-03T08:56:11","modified_gmt":"2024-04-03T08:56:11","slug":"clarice-lispector-a-jornada-de-traducao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/traductanet.com\/pt-pt\/ultimas-noticias\/clarice-lispector-a-jornada-de-traducao\/","title":{"rendered":"Clarice Lispector: a jornada de tradu\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>A explora\u00e7\u00e3o da linguagem de Clarice Lispector, tanto como escritora quanto como tradutora, reflete a profunda compreens\u00e3o que tinha do poder transformador das palavras. Pelas suas tradu\u00e7\u00f5es, facilitou uma verdadeira troca de ideias, convidando os leitores a entrar nos mundos intelectuais de Beauvoir, Christie e outros.<\/p>\n<p>Clarice Lispector nasceu em 10 de dezembro de 1920, na Ucr\u00e2nia, e tornou-se uma das mais c\u00e9lebres figuras da literatura brasileira. Com apenas um ano de idade, mudou-se para o Brasil com a fam\u00edlia, escapando do rescaldo da Primeira Guerra Mundial.<\/p>\n<p>Criada num ambiente vibrante e multicultural, Lispector cultivou um profundo apre\u00e7o pela linguagem e as respetivas nuances. Nos seus anos formativos, estudou direito e filosofia, uma base que mais tarde infundiria a sua escrita com uma profundidade filos\u00f3fica e riqueza intelectual.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2><strong>\u00a0Um prod\u00edgio liter\u00e1rio <\/strong><\/h2>\n<p>Clarice Lispector \u00e9 reconhecida pelo seu grande contributo para a literatura brasileira. A sua primeira obra liter\u00e1ria, <em>Perto do Cora\u00e7\u00e3o Selvagem<\/em>, publicada em 1943, quando tinha apenas 23 anos, marcou a estreia de uma voz distinta.<\/p>\n<p>Nela, Joana, uma jovem muito ao estilo de contempor\u00e2neos existenciais como Camus e Sartre, reflete sobre o sentido da vida, a liberdade de sermos n\u00f3s pr\u00f3prios e o sentido da exist\u00eancia.<\/p>\n<p>O estilo narrativo de Lispector caracterizava-se frequentemente pela introspe\u00e7\u00e3o, pela investiga\u00e7\u00e3o existencial e por uma prosa po\u00e9tica que transcendia a narrativa convencional. A sua explora\u00e7\u00e3o da psique humana e das quest\u00f5es existenciais valeram-lhe um destaque \u00fanico no c\u00e2none liter\u00e1rio.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2><strong>\u00a0Uma jornada de tradu\u00e7\u00e3o <\/strong><\/h2>\n<p>Embora a reputa\u00e7\u00e3o de Clarice Lispector se baseie principalmente na sua habilidade enquanto romancista, o seu papel como tradutora, menos conhecido mas igualmente significativo, \u00e9 digno de ser explorado. A sua destreza lingu\u00edstica permitiu-lhe traduzir importantes obras do franc\u00eas, do espanhol e do ingl\u00eas para o portugu\u00eas, demonstrando a sua capacidade de superar as barreiras culturais e lingu\u00edsticas.<\/p>\n<p>Aos 19 anos, Lispector j\u00e1 traduzia textos cient\u00edficos escritos em ingl\u00eas e, depois disso, realizou uma tradu\u00e7\u00e3o particularmente importante, a d&#8217;<em>O Segundo Sexo<\/em>, de Simone de Beauvoir.<\/p>\n<p>Em 6 de junho de 1952, Lispector publicou uma passagem traduzida deste livro numa coluna intitulada \u00abAprender a Viver\u00bb. O excerto escolhido conta a hist\u00f3ria de uma mulher desiludida com a sua rela\u00e7\u00e3o conjugal e com o processo de envelhecimento. A escolha destes excertos confirma a ideia de que a tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 um ato intencional, altamente flex\u00edvel e oportunista, fundamentalmente social, hist\u00f3rico e pessoal, dependente do contexto.<\/p>\n<p>Uma outra coluna, intitulada \u00abEntre mulheres\u00bb, era um espa\u00e7o onde divulgava as ideias que trazia da Europa e tinha como objetivo fundar um espa\u00e7o de consciencializa\u00e7\u00e3o, cat\u00e1rtico, psicoterap\u00eautico e educativo, pela apresenta\u00e7\u00e3o de casos ou narrativas sobre como as mulheres se deviam comportar.<\/p>\n<p>Essa consci\u00eancia parece vir de uma reflex\u00e3o influenciada por leituras e experi\u00eancias vividas durante o per\u00edodo em que Lispector, juntamente com o marido, viveu na It\u00e1lia, na Su\u00ed\u00e7a, na Inglaterra e nos Estados Unidos, e estava voltada para as dificuldades das mulheres do grupo social ao qual pertencia: mulheres brancas da classe m\u00e9dia econ\u00f3mica que, em muitos casos, apresentavam um alto n\u00edvel de escolaridade, mas n\u00e3o tinham acesso a empregos compat\u00edveis com a sua forma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2><strong>\u00a0Traduzindo procurando n\u00e3o trair <\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>\u00abTraduzo, sim, mas fico cheia de medo de ler tradu\u00e7\u00f5es que fazem de livros meus. Al\u00e9m de ter bastante enjoo de reler coisas minhas, fico tamb\u00e9m com medo do que o tradutor possa ter feito com um texto meu.\u00bb<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Da cr\u00f3nica \u00abTraduzindo procurando n\u00e3o trair\u00bb<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Divorciada do marido h\u00e1 4 anos, em 1963, Clarice Lispector, aos 43 anos, viu-se obrigada a reinventar-se financeiramente. Assim, por que n\u00e3o traduzir?<\/p>\n<p>Nos anos seguintes, at\u00e9 ao fim da sua vida, traduziu romances, contos, literatura infantil e pe\u00e7as de teatro.<\/p>\n<p>Durante um relan\u00e7amento algo for\u00e7ado em 1967 (n\u00e3o traduzia h\u00e1 mais de 20 anos), a autora sofreu uma les\u00e3o terr\u00edvel num inc\u00eandio em 1967 que quase lhe custou a m\u00e3o direita, o que parece ter assinalado os desafios que definiriam os dez anos seguintes da sua vida.<\/p>\n<p>Na d\u00e9cada de 1970, novos problemas financeiros exigiam cada vez mais tradu\u00e7\u00f5es. Lispector traduzia de tudo, de Agatha Christie a Edgar Allan Poe, J\u00falio Verne, Jack London e Oscar Wilde.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2><strong>\u00a0A viver a vida \u00e0 sua maneira <\/strong><\/h2>\n<p>Ap\u00f3s ter sido despedida d&#8217;<em>O Jornal do Brasil<\/em>, em 1974, comentou numa entrevista o seguinte sobre a atividade de tradu\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p><em>\u00ab\u00c9 o meu sustento. Respeito os autores que traduzo, \u00e9 claro, mas procuro me ligar mais no sentido do que nas palavras. Estas s\u00e3o bem minhas, s\u00e3o as que elejo. N\u00e3o gosto que me empurrem, me botem num canto, exigindo as coisas. Por isto senti um grande al\u00edvio, quando me despediram de um jornal, recentemente. Agora s\u00f3 escrevo quando quero.\u00bb<\/em><\/p>\n<p>A jornada de Clarice Lispector na tradu\u00e7\u00e3o n\u00e3o foi um mero desvio profissional; foi uma extens\u00e3o da sua paix\u00e3o pela linguagem e do seu empenho em promover um panorama liter\u00e1rio diversificado e intelectualmente din\u00e2mico.<\/p>\n<p>As suas tradu\u00e7\u00f5es n\u00e3o eram reprodu\u00e7\u00f5es mec\u00e2nicas, mas sim trabalhos art\u00edsticos que procuravam preservar o esp\u00edrito das obras originais, tornando-as acess\u00edveis a um p\u00fablico mais vasto.<\/p>\n<p>Clarice Lispector faleceu a 9 de dezembro de 1977, devido a um cancro nos ov\u00e1rios. A sua morte marcou o fim de uma carreira liter\u00e1ria not\u00e1vel, deixando para tr\u00e1s uma heran\u00e7a que continua a influenciar e a inspirar tanto leitores quanto escritores.<\/p>\n<p>Neste sentido, o legado da autora na tradu\u00e7\u00e3o entrela\u00e7a-se com o seu legado enquanto prod\u00edgio liter\u00e1rio. Perdura n\u00e3o s\u00f3 nos seus romances inovadores, mas tamb\u00e9m nos ecos de obras traduzidas que continuam a repercutir-se na l\u00edngua portuguesa.<\/p>\n<p>O seu contributo para o mundo da tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 um testemunho da ideia de que as pontes lingu\u00edsticas, quando constru\u00eddas com cuidado e arte, podem unir culturas, ideias e almas atrav\u00e9s do tempo e do espa\u00e7o.<\/p>\n<p>Gostou de saber mais sobre o trabalho de Clarice Lispector enquanto tradutora no mundo liter\u00e1rio? Fique a par do <a href=\"https:\/\/traductanet.com\/pt-pt\/blogue\/\">blogue da Traducta<\/a> para mais artigos como este!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas:<\/strong><\/p>\n<p>Book Center Brazil. (18 de Janeiro de 2022). <em>Clarice Lispector: Autora e tradutora.<\/em> centrointernacionaldolivro.wordpress.com. https:\/\/bookcenterbrazil.wordpress.com\/2022\/01\/18\/clarice-lispector-autora-e-tradutora\/<\/p>\n<p>Center for Latin American &amp; Caribbean Studies. (14 de Agosto de 2021). <em>Literature: Rediscovering Clarice through translation<\/em>. <a href=\"https:\/\/clacs.berkeley.edu\/literature-rediscovering-clarice-through-translation\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/clacs.berkeley.edu\/literature-rediscovering-clarice-through-translation<\/a><\/p>\n<p>Silva, R. K. M. (2022). As tradu\u00e7\u00f5es de Lispector e a divulga\u00e7\u00e3o da cr\u00edtica feminista no Brasil. <em>TradTerm, S\u00e3o Paulo<\/em>, 41, 155\u2013171.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A explora\u00e7\u00e3o da linguagem de Clarice Lispector, tanto como escritora quanto como tradutora, reflete a profunda compreens\u00e3o que tinha do poder transformador das palavras. 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